Armazém Cheio de Assunto

Para quem gosta de pensar no sim e no não, no antes e no depois, o "Armazém" é o lugar certo. Pode entrar, beba da minha "cachaça" sem parcimônia... Este é um Blog com crônicas afetivas que tenho escrito ao longo de um tempo, ou talvez, um ópio que produzo e uso.

quarta-feira, abril 29, 2009

61 litros de lágrimas

Chorar é bom e todos choram... Há aqueles que choram muito e por qualquer coisa, e ainda há aqueles que guardam as lágrimas em potinhos de barro dentro da alma para liberar nos momentos específicos da vida. Entretanto, a verdade é que chorar é mais uma das artimanhas e sensações gostosas que o corpo tem, acalma o nosso espírito e o faz dormir tranquilo, nos dando a sensação de alívio e leveza. Chorar é um segredo contado no momento oportuno.

Durante nossa passagem pela vida produzimos em média 61 litros de lágrimas, e vamos usar cada gota nos tantos eventos emocionais que participaremos. Conheceremos uma média de 1700 pessoas ao longo de toda a vida, mas realmente nos importaremos com cerca de 300, e um dia, sem mais nem menos, essas 300 pessoas partirão, uma a uma – nos causando muita dor, levando também nossas lágrimas. Olhando por esse ponto de vista, as lágrimas servem para amaciar o tombo da gente, acetinar a queda da alma que não consegue se sustentar com o fato de não mais ver quem se ama.

Enquanto desfrutamos da nossa existência, vamos usando muitas taças de lágrimas para regar nossa própria vida, para não perdermos o bom sabor enquanto nos transformamos em árvores grandes, às vezes grandes árvores solitárias. Enquanto a vida vai por ruas e avenidas, vamos usar garrafas caras de lágrimas traduzindo desesperos, molhando corações partidos, cenas de novelas, clássicos de futebol, assistindo shows, lágrimas para lembranças de um outro tempo, fins de namoro, vestibulares, casamentos, felicidade de conseguir o que se quer muito. São tantas garrafas de lágrimas com vitórias, pódios, perda de amigos, reencontros, partidas, raiva, alegria, tristeza, TPM, sem motivos, com filmes, Reveillon, nascimento de filho, experiências religiosas, cachaça mal tomada, dor física, simplesmente dores. Por fim, gastamos muita lágrima para viver, parece até o combustível salobro da vida. Viver é um evento que requer coragem, às vezes temos que sentir dores de parto para abrir os olhos, sentar na cama e sentir o chão sob nossos pés. É preciso muito entusiasmo para fazer o que tem que ser feito, sabendo que se pode acertar e desacertar. Contudo, na felicidade ou na tristeza vamos ter que usar esses 61 litros de lágrimas.

A alma da gente gosta de brincar na chuva, adora se sujar como criança, é assim que ela se mantém criança e não percebe o tempo passar. É como ter 60 anos e a alma de 20, é ter os olhos umedecidos pela lágrima que fertiliza a terra em que a alma se mantém plantada. A alma é a nossa parte mais frágil e por isso vive bem guardada dentro da gente, vive além dos conceitos de beleza e expectativas, em seus galhos e folhas então escondidos nossos desejos e medos.

A lágrima é a língua líquida da alma, a saliva que produz a palavra que diz por si só. Não é à toa que é também pelos olhos que a alma se mostra. Minha alma observa o desdobrar do tempo e até o cheiro que isso causa, tenho um coração que pinga, por natureza me importo com as coisas, com a cor da vida e com as pessoas. Talvez seja por isso que eu frequentemente choro, às vezes um choro pra fora que apenas lava o rosto, às vezes um choro também pra dentro, que molha o casaco da alma e até seu coração fica mexido. Em Dezembro, numa gravação de um DVD em que eu fiz a direção musical, tive uma experiência muito interessante com a lágrima. Nos 2 dias antecedentes à gravação todas as coisas estavam dando errado, como dizia um dos diretores: “A cada minuto aparece um caralho de asa voando baixo, procurando uma bunda pra entrar...” E já tinha entrado em todas as bundas possíveis, tava faltando bunda. Simplesmente os detalhes se perdiam na escuridão. Imagine um trabalho de 3 meses no penhasco se balançando pra cair... Voltei para o hotel lá pras tantas, e mais uma vez cito a mulher mais incrível que já conheci, foi ela quem tornou possível eu continuar de pé naquela noite. Quando a vi simplesmente desabei, só enxerguei seus ombros como o lugar mais confortável da terra e sua pele como o lugar certo que eu deveria plantar minhas lágrimas, seu abraço me envolveu como o ar envolve os pulmões apaixonados e muda a respiração. Depois ela enxugou minhas lágrimas com suas mãos delicadas e me disse as palavras mais certas e importantes do meio milhão de palavras que existem à nossa volta. Ao meu tempo, me reescrevi linha por linha, como um parágrafo que estava escrito errado, renovei o meu olhar e depois voltei para o evento, e no decorrer da noite, comprovei que realmente no fim as coisas sempre dão certo, ironicamente como nos filmes.

Lágrimas não precisam fazer sentido para virem ao mundo, simplesmente saem, escorrem, caem, expiram no rosto, se misturam com a chuva, com o vento, com o amor, com o suor. Chorar não é vergonhoso, não é sinal de fraqueza e nem tampouco, ter facilidade de chorar lhe torna menos problemático que os outros. Gosto de pensar na idéia de que chorar é parir uma situação que chegou num limite razoável e precisa de uma solução, é zerar o contador de incertezas, é sinalizador, é começar de novo do jeito certo, e como diz Moska, é mergulhar lá do alto de onde já caiu. As lágrimas não são psicólogas, juízas, conselheiras amorosas, deusas ou fadas com varinhas mágicas, são um elemento condutor que leva o homem ao seu centro, leva a mulher à resposta que está escondida em códigos dentro dela. É sempre tarde quando a gente chora, o choro vem sempre da solidão, não da solidão de amor e beijos de bocas boas, mas da solidão de alento, de estar faltando resposta e preenchimento. O choro vem da traição, do engano, do não estar presente, da tristeza que chega fazendo carinho e arma barraca de camping... Se nesse minuto estamos chorando, de certo, alguma coisa aconteceu, por isso é tarde. Todavia, há conserto; sempre haverá conserto, há de se enxugar todas as lágrimas do seu rosto e se preparar para dar o próximo passo. Lágrimas são caminhos (...).

Allê Barbosa

29 de Abril de 2009

8 Comentários:

  • Às 12:56 AM , Blogger Alessandra disse...

    lindooooooooooo
    meu amigoooooooooo

     
  • Às 1:35 PM , Blogger PROFESSORA ADRIANA LUCRECIO disse...

    PARABÉNS, ALLÊ!!! QUE DEUS O ABENÇÔE!!!

     
  • Às 9:16 PM , Blogger Malu disse...

    Que maravilha de texto pequenino!!!

     
  • Às 6:19 PM , Blogger Jota Fagner disse...

    Por isso, choro!

     
  • Às 2:30 PM , Blogger Helena Meyer disse...

    Um homem que chora é um homem especial, diferente... não existem muitos por aí, são raros, e privilegiadas são as mulheres que podem conviver com eles. Eu sou uma delas...
    Te amo!

     
  • Às 12:13 AM , Anonymous Paula disse...

    Chorar pode ser um sinal de q as coisas não andam bem. Mas, pelo menos pra mim, é um calmante insubstituível!!!! bjos

     
  • Às 2:43 PM , Blogger MEU DIÁRIO disse...

    Oi Allê...

    Sou a maior chorona da face da terra rssssssss
    Choro ao ver uma cena triste, choro ouvindo uma canção que me traz saudades.Choro ao ver tanta pobreza e injustiças.enfim, choro por tudo.Faz bem lava a alma e nos deixa leve.

    Beijos amigo lindo
    se cuida

     
  • Às 9:55 PM , Anonymous Anônimo disse...

    profundo!parabens!

     

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