Armazém Cheio de Assunto

Para quem gosta de pensar no sim e no não, no antes e no depois, o "Armazém" é o lugar certo. Pode entrar, beba da minha "cachaça" sem parcimônia... Este é um Blog com crônicas afetivas que tenho escrito ao longo de um tempo, ou talvez, um ópio que produzo e uso.

Domingo, Novembro 08, 2009

Enxaqueca na quinta-feira




A enxaqueca é minha inimiga declarada. Não a sinto, mas ela machuca a pessoa que mais amo nessa vida. Enxaqueca é um fantasma pálido cheio de truques sujos, sabe roubar de mim não apenas minha mulher por algumas horas, mas também sabe neutralizar meu melhor assunto. Esse desatino infame contrasta com minha idéia de que a mulher que eu amo é um anjo. Maldita enxaqueca que chega sem avisar no meio da tarde, que me mostra com uma crueldade clínica que o anjo que amo é na verdade um humano, sem poderes sobrenaturais de cura, sem asas que facilitam ir e vir e sem cabelos de cachinhos dourados. Meu anjo é como eu sou, humano, demasiadamente humano. É triste ver estampado no corpo dela o abatimento, no rosto a dor cansada, nos olhos a impaciência vigorosa, e no estômago a fragilidade que nem sequer consegue reter a água que é ingerida com o remédio.

Em mim, essa dor que ela sente causa uma absurda sensação de impotência. Me faz sentir inveja de Deus, das Suas palavras imperativas de cura, me faz querer saber qual o botão que desliga as dores humanas. Por outro lado, nessas horas sinto a estranha sensação de pai, de alguém que sofre junto, mas está no controle, se desmanchando em proteção, se transformando em conforto para ela, estando perto. Me sinto um pai que se preocupa com a luminosidade do ambiente, o volume do som da voz, a temperatura do ar-condicionado, que derrama álcool num paninho para por na testa dela, dizem que alivia. A gente só sabe mesmo o que é amor nessas horas, nas horas em que quem está no controle da situação não é o desejo sexual, ou o anseio por seios sinceros e gemidos de cores vibrantes. Nessas horas escuras quem quer estar pertinho é o coração, sendo útil, sendo parte da solução, exalando proteção.

A coisa que eu mais sinta falta nessas horas são as nossas conversas. A gente conversa o tempo todo durante o dia e nunca acaba o assunto, parece que temos um plantação incomum de palavras conexas. Às vezes acordamos de madrugada e ainda temos assunto. Como eu não sentiria falta disso? Das gracinhas que ela está sempre fazendo, dos olhinhos vivos de criança, das palavras sempre ditas na hora certa. Agora ela está aqui dormindo ao meu lado, ainda parece um anjo dormindo, entretanto, sei intimamente que ainda há um oceano de dor nos separando, tirando o ar do nosso vocabulário.

Volte logo, amor! Preciso das tuas palavras de novo. Vou beber esse mar entre a gente para que nossas palavras não se afoguem mais...

Allê Barbosa
06 de Novembro de 2009

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

O dia em que participei do Saia Justa


Eu estava hospedado em um hotel da zona sul em São Paulo. Como eu tinha algumas horas de folga até meu voo de volta a Salvador, me informei na recepção do hotel sobre algum lugar interessante pra ver gente legal e tomar uma cerveja. E assim, fui eu tomar essa bendita cerveja, cheio de vontade e de sede.

Cheguei ao referido bar, que por sinal era um bar grande, bem decorado, me sentei numa mesa mais afastada e fiquei assuntando o povo paulista. Uma coisa estranha era que a cerveja não tinha gosto de cerveja, procurava identificar aquele gosto e até hoje não sei que gosto que era. Ah, deixa pra lá, resolvi prestar mais atenção no ambiente, e num canto à minha direita percebi uma discussão acalorada de umas mulheres. Eu não as olhava, apenas as ouvia. Sei lá o que me deu na cabeça, não me dei conta do que estava acontecendo direito. Não uso drogas, mas talvez eu estivesse drogado. Eu estava tão desnudado de qualquer etiqueta social sobre interromper pessoas, que me tornei excessivamente humano, tamanha inquietação que aquela discussão me proporcionava.

No cume da minha confusão mental, agora as mulheres já com rosto, eu ouvi a Márcia Tiburi dizer: “Eu não queria ser uma esquina e muito menos uma avenida, pois elas são sempre em terceira pessoa”. Eu achei isso tão genial que me senti atraído, parecia uma xícara de café fresquinho me convidando pra uma conversa, me levantei e fui pegar outra cerveja, enquanto ia para o balcão, despretensiosamente entrei na conversa delas, que para mim durou alguns segundos, até os seguranças me pegarem. Não me lembro muito bem o que eu disse, mas elas aplaudiram logo depois. Só então, me dei conta de que o Saia Justa estava sendo gravado neste bar. Tarde demais, a vergonha já dominava cada músculo do meu corpo. Talvez, também, esse espasmo muscular tenha me acordado às 7:09 da manhã de uma sexta-feira de Novembro.

Allê Barbosa

06 de Novembro de 2009

Domingo, Agosto 30, 2009

Apaixonado pelo amor


É muito triste quando os começos são apenas séries de únicas vezes, é como se a tarde nunca virasse noite, a maré fosse e nunca mais voltasse aos seus pés e os beijos nunca se transformassem em sexo. Quando há apenas a primeira vez, fica lamentavelmente triste saber que os abraços nunca vão se converter em cuidado e atenção, que a lua cheia nunca se aproximará dos namorados. É desconcertante a sensação de que o frio cortante na barriga nunca se engravidará de casamento de amor, de almas que se encaixam como Lego.
Começo de namoro é sempre mistura criativa, como crianças brincando de massa de modelar, é uma necessidade com pressa de acontecer, uma urgência de sentir um tipo de saudade que faz a alma ficar pequena, uma tradução de encantamento e desejo que respiram dentro da gente. Começar um namoro é uma delícia, é abrir mão da possibilidade de ser feliz sozinho, é confiar num desconhecido que pode ser um anjo, é um gostoso emaranhar de pele com mãos, de suor com pele, de saliva com dentes, de generosos fluídos que o corpo entrega. Começo de namoro é uma delicada composição de palavras e assuntos que se esvaziam ao passar das horas, assuntos que se enchem com o absorver de olhares misteriosos, reticentes e desprotegidos. Começo de namoro traz pra frente o brilho que vive no fundo dos olhos e ativa a assinatura em que um olhar se reconhece no outro.
Quando eu estava no começo do que hoje é um casamento feliz, nas primeiras vezes em que ela dividiu a cama dela comigo, de manhã quando eu ia embora, naturalmente deixava meu cheiro no travesseiro, meus fios de cabelo espalhados na cama e na pele dela, esquecia em seu sorriso aquela sensação boa de que mais tarde voltaria. Nessas horas o corpo da gente parece criança a quem você promete pirulito, lhe puxa pelo braço querendo atenção, contribui produzindo lembranças para que você não se esqueça da magia de se apaixonar. É gostoso saber que em meio a mil pensamentos que estão na sua cabeça, um seja tão poderoso a ponto de voltar toda hora numa deliciosa cadência, o pensamento naquela pessoa. Viver em branco e preto não faz bem para os olhos, eles foram feitos para perceberem todas as cores. Quando conhecemos alguém e gostamos, ganhamos duas caixinhas de lápis de cor, vamos nos colorindo, descobrindo tonalidades, texturas e fazendo combinações de novas cores. Milagrosamente dá-se início a um mise-en-scène, um imediato e violento vício na pessoa, uma certa dependência química, simplesmente queremos mais presença da pessoa ao nosso lado, nunca é o bastante.

Quando você está muito ansiosa, você sente um desejo doido por chocolate, doces, e isso acontece por causa de um neurotransmissor chamado de serotonina, presente no chocolate. Do mesmo modo, as pessoas ficam deprimidas pela ausência deste hormônio no organismo. Quando temos um orgasmo, uma chuva de endorfinas são liberadas pela hipófise, nos causando euforia, relaxamento e sensação de recompensa. Somos química cotidiana e a paixão é orquestrada por essa química, essa fábrica de substâncias caras. Alguns estudos dizem que a paixão dura semanas, meses ou até anos, e acaba da noite para o dia, como se o corpo resolvesse desapaixonar, parar de produzir paixão. E depois? E aí? E as experiências, as implicações emocionais, sentimentais? Gosto de pensar que paixão é um fogo que queima seu estômago e faz evaporar seu sangue, contrai seus músculos e torna você um viciado, e isso me leva ao pensamento seguinte: é do útero dessa paixão quente que nasce o amor, que é um organismo abstrato, impalpável, pouco compreendido, mas o único capaz de suportar a vida. Talvez paixão seja apenas coisa do corpo, mas nós, gentilmente, colocamos açúcar nas definições de paixão, as temperamos com poesia e a ornamentamos com palavras coloridas e bonitos significados. Somos românticos, somos a parte lúdica dos processos da vida.
Antes de tudo, somos responsáveis por todas nossas escolhas, nossa felicidade e sentimentos. Às vezes elegemos para compor nossa vida amores que são verdadeiros enganos, palavras de perfume volátil e ruim, mãos que te empurrarão ribanceira abaixo como um jipe desgovernado. Existem falsos amores nocivos à saúde, como o cigarro que incomoda amigos, lhe destrói lentamente, mas você não percebe. Falsos amores são vampiros que tiram a paz do seu sangue, mas, sobretudo, somos nós quem permitimos que estes amores impostores nos sigam, e numa rua escura sugerimos que eles mordam nossa carne mais mole e lhe damos nosso melhor.
Começo de namoro é bom, sobretudo se começarmos certo e com a pessoa certa. O que se chama amor pode ser bem mais do que você imagina e muito menos do que você pensa, e é assim mesmo, fragmento de paradoxo escapando das explicações. Nietzsche disse que amamos mais o desejo do que o ser desejado... Ou seja, não amo você, amo a sensação boa que você me causa, amo o que está em mim. Na primeira lida é difícil digerir essas palavras tão egoístas, mas entendo que Nietzsche não teve a mesma sorte que eu. O amor é difícil de entender e nem sequer tem manual de explicação, é bobo, mas também é um pequeno sol que controla a vida fora do corpo, fora dos processos químicos.
Na deliciosa arte de começar um namoro, a paixão tropeça em nosso corpo e dessa paixão displicente brota o amor. Esse amor precisa ser puro e fluido como um bom texto que vai se ramificando através de palavras bem colocadas, um texto que tem um começo, um meio, e achamos que tem fim, mas não existe fim, o final é um código aberto, é a mensagem que fica ecoando na vida como uma música endereçada. O amor é a experiência mais extraordinária da vida, é a entrega não só do corpo, mas também da alma.
Ainda produzimos paixão, eu me apaixono todos os dias pela mesma mulher, por todas as mulheres que vivem dentro dela. Cada vez que a protejo do frio, cada vez que minha pele sente suas mãos delicadas, em cada beijo que ainda não acabou, em cada vez que a vejo se arrumando pra sair, toda linda, feminina, mulher. Amor não é remédio e nem solução de problemas, amor é a recompensa por você ter se curado, ele remove cirurgicamente a solidão do peito...

Allê Barbosa

28 de Agosto de 2009

Terça-feira, Agosto 18, 2009

Sobre Deus... E se?

Vamos partir da idéia de que humanos tentando explicar Deus é como pedir para um peixe explicar a água em que ele nada; temos cérebro de peixe! Entretanto, temos também mil perguntas amontoadas nos depósitos dos nossos minúsculos cérebros. E se... ? E se Deus não for nada disso do que dizem? Quando Nietzsche disse que deus morreu, ele disse, na verdade, que o deus que nós criamos está morto. Mas o deus que nós criamos é o mesmo deus que lhe faz ser uma pessoa melhor? Devemos então pensar: já que não criamos Deus, qual rosto Deus tem? Quem é semelhança de quem? O que é que este Deus espera de você? Talvez, o oxigênio que faça Deus existir seja a fé, se não há fé no individuo, não há Deus.

Não vejo Deus na maior parte das religiões, pois essa imagem de Deus me parece um tanto fria, egocêntrica, insensível e temperamental. Quando penso em religião me lembro de governos, mecanismos de controle e ditaduras permitidas por ignorância e distração de um povo de pensamento travado. Deus é cultural e incompatível com religião, nós colocamos deus no centro da religião e bagunçamos tudo. Não acho que Deus tenha mandado jogar dois aviões nas Torres Gêmeas para punir os pecadores americanos, não imagino Deus ordenando que os frades inquisidores matassem mais de seis milhões de pessoas na Inquisição. Parece piada ácida, mas neste período de trevas, o simples fato de tomar banho, lavar roupas, ter higiene pessoal, eram considerados apostasia e heresia, pois, quem precisava tomar banho não estava limpo. Ainda pensando nos disparates dos deuses, que deus é esse que manda cortar o clitóris das meninas aos 15 anos de idade? Que deus manda jogar cadáveres no Rio Ganges para serem purificados? Que deus pede sua casa e seus bens? Isso é um miscigenado de religião, ignorância, cultura, e sujeira, todas iguais em qualquer canto do mundo, salvo questões culturais. Que deuses são esses?

As pessoas se preocupam tanto com o Deus Power celestial, intocável, inacessível, que quando o encontrarem podem não reconhecê-lo. Deus pode ser o arquiteto do átomo dentro de você, da gravitação universal, da dança dos planetas, mas pode estar nos olhos inocentes de sua sobrinha de 10 meses de idade, nas lágrimas que escorrem do seu rosto e depois voltam como um amigo consolador, na tempestade, na música que mexe com sua menor partícula, no que você sabe fazer de melhor, na vontade de parar de usar drogas, no desejo de fazer o bem, e na alegria que é maior que o peito e não cabe dentro da gente. Deus me parece real assim, sem tirania.

Me apresentaram um deus vingativo, de comportamento às vezes infantil, machista convicto, um deus antropomórfico com defeitos humanos. Mas que diferença faz? Em alguns milhões de anos, a Lua, que se afasta 3 cm da terra por ano, sairá voando de vez pelo espaço e vai se escafeder em outro lugar. Se ainda sobrar gente, alguns milhões de anos mais tarde, o Sol, que hoje já é uma estrela de meia vida enfim explodirá, transformando em poeira cósmica toda nossa galáxia e nossos pensamentos sobre Deus. Ah! Mas o Deus vingativo que programou esse fim é explicado por Edir Macedo, também em muitas páginas bíblicas, que de partida, foram mil vezes traduzidas, contaminadas por políticas criminosas, interesses e sede de sangue ao longo dos séculos. É uma biografia contada por alguém, você decide acreditar. Tenho alguma inteligência, o suficiente para interpretar um texto, e por isso, sei que esta história contada há tantos mil anos atrás é passível de inveracidade, desvios e interpretações particulares. É complicado acreditar que o deus dos pastores picaretas permita que suas bênçãos sejam trocadas por bilhões de Reais na TV e nos templos em beneficio próprio. Se Edir Macedo nunca for preso e julgado pelos seus crimes, definitivamente, esta é a prova cabal de que o deus que ele prega não existe. Deus dá dignidade ao homem, não a rouba e não engana as pessoas acometidas por desespero. Deus tem senso de humor e está longe de ter chicote açoitante de almas “rebeldes”. Deus não faz sentir culpa, pois a culpa é uma parte dos ganhos de um analista, lota consultórios de psicologia, atrai depressão e câncer. Cresci em meio às chicotadas psicológicas da igreja e em minha adolescência senti muita culpa pelos “pecados” que eu não conseguia ficar longe nem um dia. Aos 14 anos, toda vez que eu me masturbava, inclinação natural de meninos e meninas, adultos e adultas, vinha a voz do pastor e falava na minha cabeça: “você não merece a graça de Deus, é um miserável!” Então, eu chorava e pedia perdão a Deus na hora de dormir. Que tipo de Deus é esse? Onipotente, onipresente, perfeito, grande em sabedoria, construiu um universo que está se expandindo há mais de 10 bilhões de anos e me culpa porque me masturbei pensando na Xuxa e na Vanda? Religião é controle que não serve pra mim, homem de espírito livre (ops, quase livre).

Mas, e sobre a verdade? Existe verdade? Eu digo que sua garrafa de vinho está meio vazia, você me diz que não, ela está meio cheia. Incrivelmente, neste caso existem duas verdades. Corriqueiramente, existe sempre a sua verdade e a dos outros, tudo depende de quem observa, das expectativas e das experiências. Historicamente, o que chamamos de verdade é conveniente à regra, se enfraquece de acordo com a era, a política, a ciência e a religião. Em 1500 a Terra era o centro do universo e quem discordasse da Igreja morreria empalado e esturricado na fogueira. Em 2009 se você disser a um menino de 10 anos que a Terra é o centro do universo ele terá crises de riso, ou diga a ele que Plutão é um planeta bem legal. Ao longo da vida somos obrigados a aprender verdades frágeis como ovo de galinha, verdades abandonadas pelo bom senso, desnecessárias e prejudiciais ao desenvolvimento do homem, e estas, pelo menos para mim, passaram a não fazer mais sentido. O que é verdade?

O principio da incerteza é um termo que designa a ausência de verdade absoluta. Em Mecânica quântica é impossível conhecer a posição de uma partícula em movimento, ela está em todos os lugares. Por outro lado, na Física tradicional, a luz se comporta tanto como partícula quanto onda, a energia pode ser energia e também pode ser matéria. Na área da biologia, em mecanismos bioquímicos, descobriu-se que um sistema muito sofisticado e complexo habita uma única célula, que ela se comunica com outras células através de códigos, que são ativados ao mesmo tempo. Não existe código sem inteligência para planejá-lo, um código é uma linguagem e todos estes milhões de códigos que a vida animal e vegetal têm não podem ter evoluído sozinhos. Eles foram escritos por uma inteligência planejadora e provavelmente não houve evolução, sempre foi assim. Estas novas verdades sacudiram as verdades antigas de Darwin, ateus e evolucionistas estão preocupados. Em matemática avançada, durante décadas, estudaram o comportamento do zero, e em algum ponto dos cálculos o zero se transforma em um. Então, como posso matar e morrer pelas verdades? Verdades essas que nem são minhas, são de outra época, outro povo, outras crenças, outra cultura. A pergunta que sempre me faço é: que espécie de deus estão querendo que eu acredite? Sempre desconfiei disso, é uma inquietação de quando era menino. Por outro lado, dificil falar dessa questão sem ofender, já que as mentes são tão fechadas e não se admite nenhum pensamento que não seja o esperado.

Em escola nenhuma nos ensinam a pensar, ter raciocínio próprio, interpretar a vida, perguntar por quê, ter pensamento crítico, porque esse é o maior perigo que existe para as entidades como religião, governo, organizações. Quando se pergunta por quê, explicações precisam ser dadas. A ciência se preocupa com o quê, quando, aonde – mas nós, peças, digamos, soltas da engrenagem maior, deveríamos perguntar mais vezes: Por quê? O que foi que você me disse mesmo? Me explique de novo, Sarney, Dilma Rousseff, Temporão, governo, pastor, juiz, professor. Esse pensamento questionador faz a diferença entre uma sociedade e outra, enganador e enganado.

Noventa por cento das pessoas acreditam em Deus. Eu acredito em Deus, não acredito na fuleragem que dizem que é Deus. Pense nisso: Existe frio? Existe escuridão? Você diz: estou sentindo muito frio! Está escuro, acenda a luz da varanda, por favor! Mas acredite, não existe nem o estado de frio e nem a escuridão. Chamam de frio a ausência de calor e nomearam de escuridão a falta da luz. Percebe como é complicado falar em crenças e verdades? E sempre vamos dizer que estamos com frio, e vamos sempre acender os faróis dos carros quando estiver escuro.

E o que Deus quer de você? Não quer seu dinheiro porque já tem tudo, não quer seus sacrifícios porque viver já um sacrifício perigoso, não tem o menor interesse em sua casa, simplesmente porque Ele mora dentro de você. Deus quer apenas amor, primeiro o amor próprio. Todo amor deste mundo começa dentro de você... Se apaixone por você mesmo. Eu escrevi esta frase no MSN, num daqueles insights, e foi dela que nasceu essa reflexão. Ter amor faz a diferença entre ser o resíduo da sociedade e ser uma pessoa melhor. Deus existe, sim, mas é mais particular do que você imagina...

Allê Barbosa

14 de Agosto de 2009

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Quarta-feira, Abril 29, 2009

61 litros de lágrimas

Chorar é bom e todos choram... Há aqueles que choram muito e por qualquer coisa, e ainda há aqueles que guardam as lágrimas em potinhos de barro dentro da alma para liberar nos momentos específicos da vida. Entretanto, a verdade é que chorar é mais uma das artimanhas e sensações gostosas que o corpo tem, acalma o nosso espírito e o faz dormir tranquilo, nos dando a sensação de alívio e leveza. Chorar é um segredo contado no momento oportuno.

Durante nossa passagem pela vida produzimos em média 61 litros de lágrimas, e vamos usar cada gota nos tantos eventos emocionais que participaremos. Conheceremos uma média de 1700 pessoas ao longo de toda a vida, mas realmente nos importaremos com cerca de 300, e um dia, sem mais nem menos, essas 300 pessoas partirão, uma a uma – nos causando muita dor, levando também nossas lágrimas. Olhando por esse ponto de vista, as lágrimas servem para amaciar o tombo da gente, acetinar a queda da alma que não consegue se sustentar com o fato de não mais ver quem se ama.

Enquanto desfrutamos da nossa existência, vamos usando muitas taças de lágrimas para regar nossa própria vida, para não perdermos o bom sabor enquanto nos transformamos em árvores grandes, às vezes grandes árvores solitárias. Enquanto a vida vai por ruas e avenidas, vamos usar garrafas caras de lágrimas traduzindo desesperos, molhando corações partidos, cenas de novelas, clássicos de futebol, assistindo shows, lágrimas para lembranças de um outro tempo, fins de namoro, vestibulares, casamentos, felicidade de conseguir o que se quer muito. São tantas garrafas de lágrimas com vitórias, pódios, perda de amigos, reencontros, partidas, raiva, alegria, tristeza, TPM, sem motivos, com filmes, Reveillon, nascimento de filho, experiências religiosas, cachaça mal tomada, dor física, simplesmente dores. Por fim, gastamos muita lágrima para viver, parece até o combustível salobro da vida. Viver é um evento que requer coragem, às vezes temos que sentir dores de parto para abrir os olhos, sentar na cama e sentir o chão sob nossos pés. É preciso muito entusiasmo para fazer o que tem que ser feito, sabendo que se pode acertar e desacertar. Contudo, na felicidade ou na tristeza vamos ter que usar esses 61 litros de lágrimas.

A alma da gente gosta de brincar na chuva, adora se sujar como criança, é assim que ela se mantém criança e não percebe o tempo passar. É como ter 60 anos e a alma de 20, é ter os olhos umedecidos pela lágrima que fertiliza a terra em que a alma se mantém plantada. A alma é a nossa parte mais frágil e por isso vive bem guardada dentro da gente, vive além dos conceitos de beleza e expectativas, em seus galhos e folhas então escondidos nossos desejos e medos.

A lágrima é a língua líquida da alma, a saliva que produz a palavra que diz por si só. Não é à toa que é também pelos olhos que a alma se mostra. Minha alma observa o desdobrar do tempo e até o cheiro que isso causa, tenho um coração que pinga, por natureza me importo com as coisas, com a cor da vida e com as pessoas. Talvez seja por isso que eu frequentemente choro, às vezes um choro pra fora que apenas lava o rosto, às vezes um choro também pra dentro, que molha o casaco da alma e até seu coração fica mexido. Em Dezembro, numa gravação de um DVD em que eu fiz a direção musical, tive uma experiência muito interessante com a lágrima. Nos 2 dias antecedentes à gravação todas as coisas estavam dando errado, como dizia um dos diretores: “A cada minuto aparece um caralho de asa voando baixo, procurando uma bunda pra entrar...” E já tinha entrado em todas as bundas possíveis, tava faltando bunda. Simplesmente os detalhes se perdiam na escuridão. Imagine um trabalho de 3 meses no penhasco se balançando pra cair... Voltei para o hotel lá pras tantas, e mais uma vez cito a mulher mais incrível que já conheci, foi ela quem tornou possível eu continuar de pé naquela noite. Quando a vi simplesmente desabei, só enxerguei seus ombros como o lugar mais confortável da terra e sua pele como o lugar certo que eu deveria plantar minhas lágrimas, seu abraço me envolveu como o ar envolve os pulmões apaixonados e muda a respiração. Depois ela enxugou minhas lágrimas com suas mãos delicadas e me disse as palavras mais certas e importantes do meio milhão de palavras que existem à nossa volta. Ao meu tempo, me reescrevi linha por linha, como um parágrafo que estava escrito errado, renovei o meu olhar e depois voltei para o evento, e no decorrer da noite, comprovei que realmente no fim as coisas sempre dão certo, ironicamente como nos filmes.

Lágrimas não precisam fazer sentido para virem ao mundo, simplesmente saem, escorrem, caem, expiram no rosto, se misturam com a chuva, com o vento, com o amor, com o suor. Chorar não é vergonhoso, não é sinal de fraqueza e nem tampouco, ter facilidade de chorar lhe torna menos problemático que os outros. Gosto de pensar na idéia de que chorar é parir uma situação que chegou num limite razoável e precisa de uma solução, é zerar o contador de incertezas, é sinalizador, é começar de novo do jeito certo, e como diz Moska, é mergulhar lá do alto de onde já caiu. As lágrimas não são psicólogas, juízas, conselheiras amorosas, deusas ou fadas com varinhas mágicas, são um elemento condutor que leva o homem ao seu centro, leva a mulher à resposta que está escondida em códigos dentro dela. É sempre tarde quando a gente chora, o choro vem sempre da solidão, não da solidão de amor e beijos de bocas boas, mas da solidão de alento, de estar faltando resposta e preenchimento. O choro vem da traição, do engano, do não estar presente, da tristeza que chega fazendo carinho e arma barraca de camping... Se nesse minuto estamos chorando, de certo, alguma coisa aconteceu, por isso é tarde. Todavia, há conserto; sempre haverá conserto, há de se enxugar todas as lágrimas do seu rosto e se preparar para dar o próximo passo. Lágrimas são caminhos (...).

Allê Barbosa

29 de Abril de 2009

Terça-feira, Janeiro 27, 2009

O beijo que se dá

Cada beijo que você me dá, mais de mim você tem...

Cada beijo que dou a você, mais sólido nosso amor se mantém...

Cada vez que eu me perco em sua calma, gentileza e bondade,

Quando me encontro de novo, estou mergulhado em duas verdades:

Sou um homem muito melhor; você é a mulher mais incrível que conheço...



allê barbosa

26 de janeiro de 2009

Sexta-feira, Setembro 05, 2008

Curiosidade à flor da pele



Numa revista masculina, por trás dos belos seios e dos pelos pubianos pretinhos, meticulosamente bem cuidados, existe um mundo obscuro que não compreendemos direito. Escondido atrás dos textos bem humorados e inteligentes, dos anúncios bem pensados e caros, existe uma cultura machista, invariavelmente suja e bilionária. É como a carne ilegal da iguaria que chega em sua mesa, como o diamante de sangue que adorna o pescoço, mas ninguém quer saber como ele chegou a ser o que é. Sem equívoco, tudo isso é bonito de ver.

Pois bem, mas não são essas as razões que me fazem não comprar revistas como a Playboy. Uma mulher nua numa revista simplesmente não me completa em sentido algum, vejo os seios e sinto cheiro de tinta fresca no papel, vejo a pele retocada por Photoshop e sinto o gosto amargo da impossibilidade, do não estar, do não ter como estar, da fuga da realidade. Homens comuns apenas vêem essas revistas como jogam futebol, se realizam em cada página e solitariamente se masturbam, física ou ideologicamente. No entanto, não sou um homem comum, bebo de água mais densa, bebo das cachaças da vida, envelhecidas em barris de carvalho, sinto o sabor dos anos na mulher madura, e minha crítica é mais minuciosa e transcende uma fotografia. Em suma, uma vagina é sempre bela, é uma boca que diz palavras impronunciáveis, palavras que a boca do rosto não sabe dizer, mas mesmo assim, uma vagina impressa em papel de boa qualidade não deixa meu dia nem melhor e nem pior. Entretanto, abri uma exceção para a edição da Carol Castro. Por que? Por curiosidade...

A mulher está no imaginário masculino, quase sempre sem roupa. Mas no meu, uma mulher de calcinha é mil vezes mais interessante de ver do que uma mulher completamente nua. Não sei explicar porque esta preferência, acho que se ela estiver nua, minha curiosidade deixará de existir, como o cheiro do café fresco se dilui no ar depois de alguns minutos. A curiosidade mexe com nosso desejo por sexo, desejo às vezes ilícito, mas a curiosidade faz a gente querer sentir, querer ver. Há mesmo quem diga que o homem trai apenas por curiosidade de outros cheiros, corpos, curvas, temperatura, gemidos.

Ver a Carol nua não foi exatamente uma decepção ou um sacrifício, mas eu esperava que um anjo remidor de pecados me segurasse pelas mãos e me pusesse de pé quando eu visse o xibiu da Carol. Bem, continuo cheio de pecados. Deus, em seu infinito dom de artista, teve um cuidado extremo esculpindo a Carol Castro. É, de vez em quando Deus faz isso, fez com a minha mulher também. A Carol é uma das mulheres mais belas que já vi, sua beleza, além de desfocar nossa cansada visão, é um desaforo às outras mulheres. Carol me dá uma estranha sensação de tristeza, aqueles olhinhos puxados apertam o peito da gente, mas prefiro a Carol na TV, de roupa.

Ela tem uma tatuagem infame, tão previsível quanto as rodas de liga-leve no carro do filhinho de papai, ou o pit bull passeando na companhia do lutador de jiu-jitsu. Bem que aquela tatoo poderia não estar ali. Depois de ver Carol sem roupa não fiquei sem pecados, não melhorei como homem, nem como pessoa, não vi anjos voando, mas tive uma certeza: foi a minha primeira e última Playboy, agora só comprarei revistinha da Mônica e da PRO TESTE.

Outra certeza? A mulher com quem divido a cama, o cheiro da minha pele, a água da noite, o Listerine, essa é quem merece estar em minhas revistas imaginárias, meus filmes de sacanagem, ela merece aqueles textinhos que vêm logo abaixo das fotos, merece as luzes orientadas para corrigir o ângulo, merece até olhares de curiosos, merece meus pensamentos mais safados and dirty. Nessa minha coelhinha eu tenho realização e todos meus sentidos são aflorados, vejo sua pele e sinto o cheiro, sinto seu hálito e toco seus dentes com minha língua. Mulher linda é aquela que lhe ama e mulher perfeita é aquela que lhe acolhe e lhe dá abrigo em meio à tempestade.


Allê Barbosa
03 de Setembro de 2008
 
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