Armazém Cheio de Assunto

Para quem gosta de pensar no sim e no não, no antes e no depois, o "Armazém" é o lugar certo. Pode entrar, beba da minha "cachaça" sem parcimônia... Este é um Blog com crônicas afetivas que tenho escrito ao longo de um tempo, ou talvez, um ópio que produzo e uso.

sexta-feira, abril 23, 2010

Urgência de pele


A pele é uma criatura enigmática que se veste da gente, muda as pintas de lugar, não segue ordens do cérebro, e mesmo assim, depois de um tempo a incorporamos e a transformamos em nós.


A pele é a primeira parte do outro com que temos contato, seja no aperto de mão, no carinho despretensioso ou nas carícias que antecedem o sexo. A pele é a frase mais forte do primeiro parágrafo que liga duas pessoas. Diga-me o quiser, mas é o cheiro da pele que lhe faz se aproximar e continuar perto da outra pessoa, sendo citações poderosas na boca da outra pessoa. A pele tem um imenso laboratório de fazer cheiros e abraçamos esses cheiros como o cachorrinho abraça ao dono que foi na padaria da esquina.


Os desejos sexuais precisam chegar de um lado ao outro de nossa existência, do ponto zero onde nascem até ao olhar gracioso e revelador, no momento em que uma luz se acende no corpo do outro e mexe com você. Desejos precisam trilhar por avenidas, passagens confidenciais, veias ardentes, canais e talvez o caminho mais longo seja a pele. Antes de a chuva vir, o céu se transforma completamente em outro céu, muda de cor e de lugar, de densidade, e um cheiro característico é ventilado em nossa volta. Assim é a relação do corpo com o desejo, exala um dos cheiros mais extraordinários e misteriosos entre todos que existem: o cheiro da anunciação do sexo, um código escrito em linhas frágeis para poucos captadores.


A epiderme é também uma fantasia que esconde a feiúra dos músculos e órgãos, que torna suportável nossa real aparência. Sem pele, todos humanos são análogos, africanos e finlandeses, japoneses e sergipanos, anões e jogadores de basquete. Evitamos pensar na pele como um agente transformador de um padrão comum a todos, padrão de feixes entrelaçados que formam músculos, cor de sangue e esqueleto esquálido. Fazemos de conta que da pele pra dentro é vazio, é uma profunda escuridão. O fato é que preferimos sempre o caminho mais agradável para o encanto dos olhos, que é distancia entre os olhos e a pele.


Epiderme, pele, tez, uma tela aveludada em que se pintam os mais diversos estilos de arte, mil tipos de enfeites, maquiagem, blush, gloss, depilação, perfume, hidratante. Acessórios indispensáveis para mulheres que transformam o bom no excelente, mas não há nada tão eficaz e poderoso como o cheiro natural, é esse quem enlouquece a sua cabeça.


É assim: de noite, habitualmente ela recosta o corpo na cabeceira da cama e lê um livro. Neste momento estou deitado ao lado, de costas nuas viradas pra ela, ouvindo o barulhinho das páginas passando, sendo devoradas. Me aproveito de um hábito que ela tem de escrever com o dedo indicador quase tudo que lê ou ouve, só percebe quem a conhece muito bem. Sabendo disso, deixo minhas costas por perto e minha pele se transforma num caminho virgem, um pergaminho em que ela escreve páginas e páginas de textos imaginários, como uma tatuagem que só ela enxerga, com letras e palavras que vão se sobrepondo, num emaranhado de assuntos com ritmo. É uma visão bem particular da relação da minha mulher com a minha pele.


A pele é também a outra forma de contar a mesma história. Na pele são impressas as experiências da idade e os graus de maturidade, os segredos da vida, enquanto ela saboreia o gosto do tempo. Na pele me minimizo, fico almodóvico, para astutamente considerar a geografia do corpo, ser encharcado por texturas, proeminências, reentrâncias, destaques, realces. Poderia ficar horas seguindo as trilhas que sempre me levam a novas descobertas em lugares já conhecidos dos olhos. A pele boa dela me parece um lugar seguro para repousar minhas mãos, roçar minha pele e dormir meus olhos. É na pele dela em que me redescubro, que vou e volto deslizando, mergulhado num cheiro tão bom que não consigo ficar distante por muitas horas.


A pele é uma pedra jogada na água que cria uma onda que conecta todo o lago, todo o corpo, reproduz os versos em onda, traduz o macio em calor. A pele é sempre destinada a outra pele, a outro arrepio, a outro suor, a outra boca, a outros olhos. A pele, não aquela plastificada de Photoshop, mas aquela encarnada de segredos, é o livro mais gostoso de ler, é a sonoridade mais harmoniosa dessa música chamada vida.



Allê Barbosa


19 de Abril de 2010




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3 Comentários:

  • Às 2:32 PM , Anonymous Mariza disse...

    Como sempre muito bem escrito nos fazendo pensar nas coisas tão simples e tão gostosa da vida.Parabéns!

     
  • Às 11:59 AM , Blogger Charly disse...

    Allê, me identifiquei bastante com esta crônica.
    Primeiro, por que cheiro e pele são duas coisas que me fascinam e estão inscritos no meu modo de existência peculiar (são parte do meu único vício, que não é nada fora do comum, mas também não cabe dizer aqui rsrs).
    Segundo, por que parece que você leu Freud [rsrs]. Ele diz que toda constituição do sujeito se dá inicialmente através do contato "entre peles". Através do toque o outro poderá ou não despertar no corpo sensações agradáveis, e essas sensações se tornam sentimentoss, que produzem um sentido. Este sentido constituem o afeto.
    Enfim, acho Freud brilhante por ter teorizado sobre uma realidade que percebemos todos os dias na prática, e vc por ter descrevido isso tão brilhantemente.
    PARABÉNS!

    "A pele é a frase mais forte do primeiro parágrafo que liga duas pessoas. Diga-me o que quiser, mas é o cheiro da pele que lhe faz se aproximar e continuar perto da outra pessoa, sendo citações poderosas na boca da outra pessoa".
    [QUE INSPIRAÇÃO VIU...]

     
  • Às 9:08 PM , Blogger Transtornos Alimentares disse...

    "Um código escrito em linhas frágeis para poucos captadores"(Allê).
    Ótimo texto!!!
    Como diz Rubem Alves:"O tato é o sentido que marca, no corpo, a divisa entre Eros e Tânatos. É através dele que o amor se realiza e a tortura acontece..." Assim como o tato, é o olhar: é um amante para 'poucos captadores'.

    Sucesso! Parabéns pelo texto.

    Carina Castro.

     

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